Wikimedia Brasil/Report/2025/Learning/Funds and Administration
Estudos de Caso
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Primeiro semestre
Governança e Colaboração Internacional - Plano de Ação Internacional da Wikimedia Brasil
Introdução

Este estudo de caso trata da elaboração e implementação do Plano de Ação Internacional da Wikimedia Brasil (WMB), uma iniciativa da gestão de Fundos e Administração que visa orientar e consolidar a atuação internacional da organização.
Em consonância com sua Teoria da Mudança 2025 e com o Manifesto Estratégico 2023–2025, o plano busca posicionar a WMB como um agente ativo na governança global do Movimento Wikimedia e como referência de atuação contextualizada do Sul Global, com base em princípios de equidade, justiça epistêmica e solidariedade transnacional.
Questões
- De que modo foram desenvolvidos projetos sustentáveis com outros países da Wikimedia lusófona e com outros afiliados do Sul global?
- Em que medida a WMB participou ativamente de processos decisórios dentro do ecossistema Wikimedia com posicionamentos alinhados com outros grupos do Sul Global?
- Em que medida a WMB contribuiu com o debate sobre o futuro da internet e se posicionou frente às práticas regulatórias?
Contexto do caso
Desde sua fundação em 2013, a Wikimedia Brasil tem contribuído para o fortalecimento do ecossistema do conhecimento livre no país, por meio de iniciativas estruturadas nas áreas de educação, tecnologia, cultura, engajamento comunitário e governança. Sua atuação internacional, embora presente e relevante, vinha se dando de forma pontual — por meio de participações em eventos globais, parcerias com grupos lusófonos e envolvimento em plataformas como o Capacity Exchange.
Com o amadurecimento institucional da organização e a consolidação da Teoria da Mudança 2025, tornou-se evidente a necessidade de sistematizar essa frente de atuação. Em 2024, a WMB deu início à construção de um plano que orientasse sua inserção internacional de maneira estratégica, articulada e prospectiva, em consonância com os princípios de descentralização, equidade e cooperação que norteiam a Movement Strategy 2030.
Operacionalização
A construção do Plano de Ação Internacional foi liderada pela gestão de Fundos e Administração, com participação da coordenação executiva e das demais gestões da equipe permanente, especialmente as de Comunicação e Comunidade. O processo refletiu os princípios de inclusão e colaboração preconizados pela Movement Strategy 2030, assegurando que diferentes áreas da organização contribuíssem de maneira articulada para a formulação do documento.
A elaboração do plano partiu de uma revisão aprofundada dos documentos estratégicos da WMB — como a Teoria da Mudança 2025 e o Manifesto Estratégico 2023–2025 — e incluiu uma análise crítica das estruturas emergentes de governança no Movimento Wikimedia, como os hubs regionais, o Global Resource Distribution Committee (GRDC), o Product and Technology Advisory Council (PTAC) e a reformulação do Affiliations Committee (AffCom). Este mapeamento seguiu a recomendação da estratégia global de garantir equidade na tomada de decisão, que propõe a criação de estruturas mais representativas e descentralizadas no movimento.
O processo também contou com escutas específicas com membros do Calilu e parceiros lusófonos, fortalecendo a dimensão de aprendizado coletivo e a lógica de atuação por afinidade linguística, conforme orienta a recomendação de investir em desenvolvimento de capacidades e liderança, especialmente entre comunidades sub-representadas. Além disso, foram sistematizadas experiências anteriores de colaboração internacional da WMB, como sua atuação em eventos globais, parcerias estratégicas e projetos de formação comunitária.
O documento final servirá para estabelecer diretrizes claras sobre papéis institucionais, protocolos de relacionamento com os diferentes atores do movimento Wikimedia, definição de metas e indicadores de atuação internacional, critérios de uso de idiomas e mecanismos de acompanhamento e avaliação. Também explicita a posição da WMB em relação à Fundação Wikimedia (WMF), à comunidade, aos demais afiliados e a organizações externas, alinhando-se ao princípio de “Melhorar a coordenação dentro do movimento” e de “Documentar e compartilhar práticas para ampliar o impacto coletivo”.
Resultados

Com a publicação do Plano de Ação Internacional, a WMB passará a contar com um documento referencial que consolida sua identidade internacional e orienta sua inserção nos espaços globais do movimento. O plano servirá ainda de base para a participação coordenada em iniciativas relacionadas a grupos e projetos iminentes no movimento, bem como o fortalecimento do projeto Calilu e a integração aos hubs emergentes da governança global do movimento, como o GRDC e o PTAC.
O documento também orientou a presença em eventos já consolidados no movimento, como a Wikimania e os encontros regionais estratégicos, promovendo a atuação da WMB como referência do Sul Global. A clareza sobre papéis institucionais e o uso de idiomas deve fortalecer a coerência comunicacional da organização.
Análise
A elaboração do Plano de Ação Internacional representou um desafio importante para a Wikimedia Brasil: o de produzir um documento que não apenas descrevesse intenções genéricas, mas que efetivamente estabelecesse eixos concretos de atuação internacional. Evitar um plano excessivamente abstrato ou simbólico exigiu um esforço deliberado de articulação entre diferentes áreas da organização, bem como um compromisso com a clareza estratégica e a coerência institucional.
O resultado desse processo reflete a maturidade organizacional da WMB e sua capacidade de formular estratégias alinhadas às demandas e oportunidades do ecossistema global do conhecimento livre. O plano fortalece a habilidade da organização de se posicionar de forma autônoma, solidária e propositiva nos espaços decisórios internacionais, contribuindo para uma governança mais plural e representativa no Movimento Wikimedia.
Orientação
Este estudo de caso evidencia a relevância de uma abordagem estratégica, estruturada e situada para a inserção internacional de organizações do Sul Global em arenas multilaterais. Em contextos marcados por assimetrias históricas de poder e representação, como o Movimento Wikimedia, é fundamental que essas organizações articulem sua atuação internacional sem abrir mão de suas especificidades culturais, linguísticas, sociais e políticas — transformando tais características em vetores de inovação e justiça epistêmica.
A experiência da Wikimedia Brasil demonstra que é possível construir diretrizes internacionais sólidas a partir de processos participativos, intersetoriais e alinhados aos valores institucionais, favorecendo o engajamento qualificado com instâncias globais e o fortalecimento de redes de colaboração entre comunidades historicamente sub-representadas.
Para além da inspiração que esse modelo oferece a outras organizações wikimedistas, recomenda-se que planos dessa natureza sejam concebidos como instrumentos vivos, sujeitos à atualização contínua. Sua revisão periódica deve estar em sintonia com o planejamento estratégico institucional e com as transformações nos espaços decisórios do movimento — como o avanço dos hubs regionais, a evolução das estruturas de governança global e os debates regulatórios sobre o futuro da internet. Dessa forma, assegura-se não apenas a pertinência do plano ao longo do tempo, mas também sua capacidade de responder a desafios emergentes com flexibilidade e coerência.
Legado

O Plano de Ação Internacional da Wikimedia Brasil deixa como legado um modelo estruturado e replicável de institucionalização da atuação internacional de afiliados no ecossistema do conhecimento livre. Ao alinhar-se aos princípios de descentralização, equidade e subsidiariedade defendidos na Movement Strategy 2030 — em especial nas recomendações “Garantir equidade na tomada de decisão” e “Melhorar os processos de coordenação” — o plano contribui para consolidar práticas de governança mais inclusivas e distribuídas no Movimento Wikimedia.
Sua concepção fortalece o papel da WMB como articuladora de redes de solidariedade epistêmica entre comunidades do Sul Global e da lusofonia, promovendo a justiça do conhecimento em escala global. Além disso, ao valorizar a documentação de processos, o planejamento colaborativo e o compartilhamento de práticas, o plano ecoa diretamente a recomendação de “Gerenciar o conhecimento interno”, oferecendo subsídios para que outras organizações desenvolvam abordagens semelhantes, de forma contextualizada e participativa. Desse modo, o plano reposiciona o Brasil e a lusofonia como atores legítimos e estratégicos na construção do futuro do movimento, assegurando que suas contribuições não sejam apenas reconhecidas, mas também estruturantes para a próxima fase de governança global da Wikimedia.
Referência documental
- Movement Strategy 2030
- Teoria da Mudança da WMB (2024)
- Estratégia WMB 2023-2025
- Diretrizes sobre Hubs regionais (Wikimedia Movement Hubs Guidelines)
- Política de Diversidade e Inclusão da WMB
- Documentações gerais relacionadas ao Calilu e do Capacity Exchange (CapX)
- Registros internos de participação da WMB em GRDC, PTAC, AffCom, Let's Connect
Segundo semestre
Migração sustentável para software livre: os aprendizados e as oficinas de capacitação e prototipagem da WMB
Introdução
Este estudo de caso trata do processo de concepção, realização e avaliação das três oficinas de prototipagem de software livre conduzidas pela Wikimedia Brasil (WMB) no âmbito de sua estratégia institucional de substituição gradual de ferramentas proprietárias por soluções livres. A iniciativa integra a agenda da gestão de Fundos e Administração em resposta às diretrizes definidas no relatório "Infraestrutura Administrativa de Código Aberto" e no documento "Prototipagem para adoção de software livre no WMB".
O processo buscou testar, de forma orientada e realista, ferramentas livres que pudessem fortalecer a soberania digital da organização, reduzir riscos operacionais, qualificar fluxos de trabalho e promover uma cultura institucional coerente com os valores do movimento Wikimedia. As oficinas, realizadas no segundo semestre de 2025, abordaram duas trilhas tecnológicas: gestão de senhas e credenciais por meio do software chamado Bitwarden e a edição e o gerenciamento de imagens, especialmente de arquivos do tipo RAW, com o Darktable.
Nesse contexto, este estudo se relaciona diretamente com o eixo 1 da Estratégia 2023-2025, “(Re)imaginar a infraestrutura sociotécnica do Movimento Wikimedia”.
Questão

- De que modo foram desenvolvidos projetos sustentáveis com outros países da Wikimedia lusófona e com outros afiliados do Sul global?
- Como o WMB avançou na difusão de valores wiki, como a prática de contribuição voluntária e a cultura colaborativa?
- Como o WMB diagnosticou, propôs soluções e atuou para resolver entraves técnicos dos projetos Wikimedia?
Contexto do caso
Desde 2024, o Wiki Movimento Brasil investe na formulação de um plano institucional para ampliar o uso de softwares livres em sua operação. O relatório “Infraestrutura Administrativa de Código Aberto” explicitou tanto os benefícios quanto os desafios associados à migração, incluindo dependências históricas, lacunas de suporte técnico e a elevada curva de aprendizagem de determinadas categorias de software, como editores avançados, suítes de escritório e ferramentas de streaming.
Com base nesse diagnóstico, o documento “Prototipagem para adoção de software livre no WMB” orientou que a adoção deveria ocorrer de forma incremental e fundamentada, priorizando áreas onde a substituição fosse tecnicamente viável e de impacto organizacional positivo. As entrevistas internas e análises do sistema SARA mostraram que grandes movimentos, tais como substituir o Google Workspace, StreamYard ou mesmo o pacote Adobe, implicariam riscos substanciais, exigiriam mudanças culturais profundas e apresentariam desafios técnicos subestimados.
Nesse cenário, a gestão de Fundos e Administração propôs a realização de três oficinas de prototipagem para testar alternativas livres em dois domínios estratégicos: segurança de senhas e credenciais (Bitwarden) e edição de arquivos de imagem RAW (Darktable). As oficinas permitiram que a equipe experimentasse diretamente as ferramentas, sem comprometer a continuidade das atividades organizacionais.
Operacionalização
A realização das oficinas se apoiou em três princípios centrais definidos no documento de prototipagem: realismo, participação e baixo impacto operacional.
- Bitwarden – Oficina 1
- Conduzida por Alberto Leôncio, a oficina apresentou fundamentos de segurança digital, demonstrou a criação de cofres, permissões por área e fluxos de rotação e recuperação de senhas. O foco foi oferecer uma base prática para a institucionalização de políticas de credenciais, indo além da adoção da ferramenta em si. O relatório da oficina destaca que a ferramenta só produz efeitos quando acompanhada por governança clara: onboarding/offboarding, contingências, auditorias e 2FA obrigatório.
- Darktable – Oficinas [[wmbr:Oficina 2 de adoção de software livre na WMB|]2] e 3
- Facilitadas por Thais May, as oficinas abordaram desde fundamentos da fotografia RAW até práticas avançadas de catalogação, classificação, uso de presets, edição em lote e organização de acervo. A Parte 1 concentrou-se em conceitos essenciais, fluxo básico e boas práticas; a Parte 2 aprofundou grupos de módulos, padronização de exportações e rotinas de classificação.
As oficinas mostraram que, embora o Darktable exija curva de aprendizagem considerável, sua adoção pode qualificar o acervo visual da WMB, reduzir a dependência do Lightroom e alinhar fluxos ao ecossistema de conhecimento livre.
Ao longo do processo, a gestão de Fundos e Administração adotou uma postura de escuta ativa. As pessoas em funções de assistência, comunicação, tecnologia e documentação apontaram obstáculos práticos, o que levou a um redirecionamento estratégico: a compreensão de que grandes migrações tecnológicas, tal como a substituição completa do Google Workspace, eram ambições legítimas, mas prematuras. Esse redirecionamento fundamentou uma escolha metodológica: priorizar adoções viáveis (Bitwarden e Darktable) e adiar mudanças com alta dependência estrutural.
Resultados
A realização das oficinas produziu resultados tangíveis em três dimensões principais:
- Clarificação institucional sobre limitações e riscos
- A experiência prática deixou evidente que algumas substituições imaginadas inicialmente (ex.: do StreamYard para o OBS; do Google Workspace para uma combinação de Nextcloud + MediaWiki) apresentam curvas de aprendizagem muito maiores que o previsto, exigem infraestrutura não trivial e poderiam comprometer a fluidez dos processos internos.
- Identificação de dois vetores viáveis de adoção
- Bitwarden mostrou-se madura e aplicável de imediato, com ganhos diretos para a governança de credenciais e para a segurança institucional.
- Darktable emergiu como alternativa sólida ao Lightroom, sobretudo para edição não destrutiva, padronização de acervos e qualificação dos materiais utilizados em GLAM, concursos fotográficos e comunicação.
- Produção de propostas estruturadas
- As oficinas geraram insumos para dois documentos: "Proposta de uso estratégico do Bitwarden" e "Proposta de uso estratégico do Darktable", que consolidam orientações técnicas e fluxos internos.
Análise

O processo de prototipagem evidenciou que a adoção institucional de software livre exige planejamento, realismo e compreensão profunda das capacidades da equipe. A expectativa inicial de substituições amplas revelou-se incompatível com o nível atual de maturidade técnica e com o tempo disponível para formação sem prejuízo das rotinas operacionais. Em outras palavras, havia um descompasso entre ambição tecnológica e viabilidade organizacional.
As oficinas permitiram transformar esse descompasso em aprendizado coletivo. A curva de aprendizagem elevada do OBS, somada ao papel crítico do Google Workspace, mostrou que a migração total para ferramentas livres é um processo de longo prazo, dependente de investimento recorrente em formação e de infraestrutura técnica mais robusta que a disponível atualmente.
Por outro lado, o Bitwarden e o Darktable demonstraram alto potencial de adoção incremental, com impacto direto em segurança, padronização e qualidade técnica. As oficinas revelaram que pequenas mudanças bem orientadas podem produzir avanços significativos sem comprometer a funcionalidade cotidiana da organização.
Assim, o processo de prototipagem confirmou uma tese importante para a gestão de Fundos e Administração: a migração para software livre deve ser estratégica, modular, escalável e ancorada em escuta contínua e não em uma ruptura abrupta.
Orientação
Este estudo de caso reforça que organizações do ecossistema Wikimedia, especialmente no Sul Global, precisam conciliar princípios éticos com o pragmatismo operacional. Uma política de adoção de software livre deve:
- priorizar áreas onde a mudança produz ganhos reais e riscos baixos;
- incluir formação permanente, documentação interna robusta e governança clara;
- considerar não apenas a ferramenta, mas o ecossistema de práticas que a sustenta;
- reconhecer que algumas ferramentas proprietárias continuarão necessárias por períodos prolongados.
A experiência do WMB mostra que oficinas de prototipagem são metodologias eficazes para testar cenários possíveis, reduzir incertezas e alinhar expectativas. E aponta que o caminho mais eficiente é aquele que combina avanços graduais com revisões contínuas de capacidades e limitações internas.
Legado
As oficinas de prototipagem deixam como legado imediato:
- um modelo replicável para introdução de ferramentas livres em organizações pequenas e médias;
- a elaboração de fluxos institucionais para segurança digital (Bitwarden) e gestão e edição de imagens RAW (Darktable);
- diretrizes para padronização fotográfica, criação de presets, organização de acervos e qualificação de materiais visuais da WMB;
- a abertura de um debate interno mais maduro sobre riscos, limites e horizontes de uma migração futura para plataformas livres.
Além disso, o processo consolidou uma cultura de experimentação orientada por evidências, indispensável para futuras decisões estratégicas, incluindo eventuais migrações mais profundas de infraestrutura. Ao reconhecer que certas mudanças exigem mais tempo, capacidade técnica e investimento, a WMB fortalece sua autonomia e reduz riscos institucionais, mantendo fidelidade aos valores do movimento Wikimedia.
Referência documental
- Infraestrutura Administrativa de Código Aberto (WMB)
- Prototipagem para adoção de software livre no WMB
- Oficina 1 de adoção de software livre – Bitwarden
- Oficina 2 de adoção de software livre – Darktable (Parte 1)
- Oficina 3 de adoção de software livre – Darktable (Parte 2)
- Bitwarden
- Darktable
- Proposta de uso estratégico do Bitwarden
- Proposta de uso estratégico do Darktable
- Planejamento Estratégico WMB 2023-2025
